O mês de dezembro reforçou um comportamento que já vinha sendo observado no mercado brasileiro: a compra apenas do essencial. Mesmo com um cenário internacional mais fraco, o comprador segue em modo defensivo, calibrando volumes com muito mais atenção ao risco do que à oportunidade imediata de preço. Essa postura é consequência direta da combinação entre câmbio firme, frete ainda resistente e a incerteza que envolve o próximo tender da Índia, elementos que, somados, formam um ambiente em que a cautela faz mais sentido do que movimentos agressivos de recomposição de estoque.

O câmbio permanece como um dos principais limitadores. Mesmo com o CFR ajustando para baixo, a oscilação entre R$ 5,35 e R$ 5,45 reduz significativamente o ganho potencial em reais. Para operações que já trabalham com margens apertadas, essa volatilidade impede que a queda em dólar se converta em um benefício imediato para o comprador brasileiro. A taxa de juros elevada também pesa, com a Selic ainda alta, o custo financeiro de carregar estoque longo se torna pouco atrativo, reforçando a estratégia de compras mais enxutas.

No campo logístico, o alívio no frete marítimo é apenas parcial. O Brent recuou, e a menor utilização de navios ajudou a reduzir o bunker, mas contratos firmados em patamares anteriores e as rotas mais longas de algumas origens ainda mantêm o custo operacional em níveis elevados. O spread Brasil vs origens permanece na faixa de US$ 50–60/t, o que suaviza, mas não elimina, a pressão sobre o preço final. Além disso, o line-up portuário mais folgado não muda o fato de que os custos internos (pedágios, diesel e rodoviário de longa distância) continuam firmes, compondo um cenário logístico que exige disciplina na formação de preço.

A variável mais decisiva, porém, continua sendo a Índia. A ausência temporária do país no mercado spot abriu espaço para quedas graduais, mas a expectativa de um novo tender no início de janeiro mantém o comprador brasileiro em estado de observação. Se a Índia voltar com volume, grande parte da oferta do Oriente Médio e da China será absorvida rapidamente, limitando espaço para novas baixas e devolvendo algum fôlego aos produtores. Caso entre de forma tímida ou mais tarde do que o mercado espera, o ambiente de pressão vendedora pode se prolongar por algumas semanas adicionais.

Nesse intervalo, o Brasil se encontra em uma posição mais confortável do que em outubro. O país não está atrasado no fluxo internacional, a disponibilidade de produto é adequada e os vendedores, pressionados, estão mais flexíveis do que o habitual. Esse equilíbrio cria um terreno fértil para negociações táticas, especialmente para compradores que conseguem mapear janelas de preço e alinhar embarques de curto prazo. Há, porém, consciência de que o cenário é transitório, a leve tendência baixista do curto prazo pode dar lugar a estabilidade,  ou mesmo início de recuperação, caso a Índia puxe o mercado em janeiro.

Por isso, a estratégia dominante de dezembro tem sido a de atuação ajustada com compras essenciais, volumes calibrados e atenção redobrada aos movimentos globais que podem reverter a atual trajetória. Em um mercado que perdeu força, mas não cedeu totalmente, a vantagem está em acompanhar cada sinal de mudança antes de se comprometer com posições maiores. Essa postura permite ao comprador brasileiro proteger margem, manter competitividade e atravessar a virada do ano com maior previsibilidade, enquanto observa atentamente o gatilho que decidirá o ritmo do primeiro trimestre de 2026.

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