O CFR da ureia recuou, o mercado global perdeu tração, mas o preço em reais não caiu na mesma proporção. A pergunta surge naturalmente: onde está o alívio?
A resposta está no câmbio.
O fertilizante é uma commodity dolarizada. Isso significa que qualquer leitura de preço precisa, obrigatoriamente, passar pela taxa de conversão. Quando o dólar permanece em patamar elevado, ele atua como um amortecedor de queda, reduzindo o impacto positivo de um mercado internacional mais fraco.
Na prática, cada variação relativamente pequena no câmbio tem efeito direto no custo final. Movimentos de R$ 0,10 podem representar dezenas de reais por tonelada. Em um cenário de margens apertadas, isso não é detalhe operacional; é fator decisivo.
Esse descolamento entre CFR e preço doméstico gera dois riscos comuns. O primeiro é a percepção equivocada de que “o mercado não caiu de verdade”. O segundo é a postergação excessiva da compra, na expectativa de um repasse que pode não vir se o dólar seguir firme.
Além disso, o câmbio influencia o comportamento dos vendedores. Em momentos de dólar alto, há menos urgência para concessões agressivas, já que parte da margem é preservada na conversão. Isso ajuda a explicar por que o mercado pode parecer fraco, mas resistente a quedas mais abruptas.
Para o comprador brasileiro, o ponto central não é tentar prever o dólar. É entender seu peso na decisão. Em alguns momentos, uma negociação bem feita em dólar compensa um câmbio desfavorável. Em outros, esperar exclusivamente pelo preço internacional pode significar perder a janela certa.
Ler o mercado de ureia hoje exige dupla atenção: ao físico e ao financeiro. Quem considera apenas um dos lados enxerga metade do cenário e toma decisões incompletas.

