O mercado internacional de ureia entrou em dezembro confirmando uma perda clara de tração. A combinação entre demanda fraca nos EUA e na Europa, exportações moderadas da China e a ausência temporária da Índia no mercado spot criou um cenário em que os vendedores passaram a disputar compradores com mais intensidade, esse é um movimento incomum para esta época do ano e que reforça a percepção de um mercado global enfraquecido.
As principais referências de preço ilustram esse ambiente:
FOB Rússia: US$ 360–375/t
FOB Oriente Médio: US$ 390–400/t
CFR Brasil: US$ 395–415/t
Embora as quedas sejam graduais, elas mostram um descolamento entre oferta e demanda nas regiões que tradicionalmente atuam como âncoras do mercado. A Europa praticamente saiu das compras spot, protegida por estoques razoáveis e pela incerteza regulatória do CBAM (Mecanismo de Ajuste de Carbono na Fronteira, em portugês) a partir de janeiro de 2026. Nos EUA, o mercado em Nola* também perdeu ímpeto, com barges para o primeiro trimestre negociadas com prêmios curtos frente ao spot — sinal de que o comprador norte-americano não vê urgência em recompor posição.
Nesse contexto global, o Brasil surge como um dos poucos mercados ainda ativos, mas em postura claramente seletiva. O consumidor brasileiro não tem pressa: após meses de compras mais espaçadas, o país não está atrasado em relação ao fluxo internacional, o que permite conduzir negociações de forma mais tática. As tradings e misturadoras focam apenas em volumes essenciais, deixando espaço para observar movimentos de Índia, câmbio e fretes antes de ampliar posição.
Apesar da descompressão no CFR (Custo e Frete, em portugês), o impacto direto no preço interno é limitado pelo câmbio ainda firme, oscilando entre R$ 5,30 e R$ 5,45. Esse equilíbrio impede que a queda em dólar se traduza em um ganho proporcional em reais, especialmente para operações de curto prazo. Ao mesmo tempo, o frete marítimo dá sinais de acomodação, com recuo no bunker e menor ocupação de navios, mas permanece longe dos níveis que permitiriam um ajuste mais profundo no spread Brasil vs origens, que segue na faixa de US$ 50–60/t. Ou seja, o custo para trazer o produto até o porto brasileiro ainda é expressivo o suficiente para segurar parte da tendência de baixa.
Esse conjunto de fatores cria um ambiente peculiar, já que o o mercado está enfraquecido, mas não em um ciclo de liquidação. Os produtores do Oriente Médio, por exemplo, ajustam preços lentamente para preservar margens, enquanto Egito e Argélia concedem descontos mais visíveis apenas para garantir embarques antes do fim do ano. A China, embora ativa, evita agressividade para não provocar quedas mais bruscas no mercado global.
Para o comprador brasileiro, o impacto direto é duplo. Por um lado, há uma janela real de negociação, com maior poder de barganha e oferta mais flexível. Por outro, essa mesma janela é limitada pela necessidade de acompanhar variáveis ainda incertas, principalmente o próximo tender da Índia, que deve ser anunciado no início de janeiro e tem potencial para redesenhar o equilíbrio entre oferta e demanda do primeiro trimestre de 2026.
Assim, o cenário atual favorece decisões táticas: o Brasil encontra um mercado mais fraco, com preços ajustados e vendedores mais dispostos, mas ainda sem um gatilho que indique um movimento contínuo de queda. O país navega essa dinâmica com cautela, evitando alongar posição enquanto observa se a Índia entrará com força, qual será a reação das principais origens e como o câmbio se comportará na virada do ano. É uma fase em que a vantagem está mais na leitura de ritmo do que na pressa por volume, e essa postura tem permitido ao comprador brasileiro manter competitividade sem assumir riscos desnecessários no momento.
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*Nola é a abreviação para New Orleans, Louisiana, o maior hub de distribuição de fertilizantes dos EUA. Ele funciona como um referencial de preços, um “termômetro” para o mercado americano. Quando dizemos “mercado em Nola perdeu força” significa que os preços e volumes negociados nos terminais de New Orleans recuaram, indicando menor demanda nos EUA. Nola é tão relevante que muitas transações globais consideram sua movimentação como indicador de tendência.

