Por Marcos Vinícius Martins Morais, Gerente Comercial da Nobel

A ureia consolidou-se como uma das principais fontes de nitrogênio não proteico (NNP) utilizadas na nutrição de ruminantes. Seu elevado teor de nitrogênio, equivalente a aproximadamente 281% de proteína bruta, aliado ao baixo custo por unidade de proteína equivalente, faz dela uma ferramenta estratégica para reduzir os custos da alimentação sem comprometer o desempenho quando corretamente utilizada.

Entretanto, limitar a discussão da ureia apenas ao seu potencial econômico é ignorar a evolução que a nutrição de ruminantes vivenciou nas últimas décadas. Hoje, acredito que o desafio deixou de ser simplesmente utilizar ureia e passou a ser maximizar a eficiência de utilização do nitrogênio no rúmen. Esse novo conceito impulsionou o desenvolvimento de diferentes tecnologias, capazes de melhorar o sincronismo entre nitrogênio e energia, reduzir perdas metabólicas, aumentar a segurança de utilização e contribuir para sistemas de produção mais eficientes e sustentáveis.

O verdadeiro papel da ureia no rúmen

A ureia não é uma proteína, mas uma fonte de nitrogênio não protéico (NNP) utilizada pelos microrganismos ruminais para sintetizar proteína microbiana, uma importante fonte de proteína metabolizável para os bovinos.

Para que esse processo seja eficiente, é fundamental que a liberação de amônia ocorra em sincronismo com a disponibilidade de carboidratos rapidamente fermentáveis. Quando esse equilíbrio não acontece, parte do nitrogênio é perdida na forma de ureia pela urina.  reduzindo a eficiência nutricional e aumentando o impacto ambiental. É justamente para melhorar esse sincronismo que surgiram as principais inovações tecnológicas no uso da ureia.

Nutrição de precisão: a nova fronteira

Não seria possível avaliar a evolução das tecnologias de ureia sem citar o maior movimento da pecuária: a nutrição de precisão.

Modelos nutricionais modernos, como o CNCPS e as recomendações atualizadas do NASEM, permitem estimar com maior precisão as exigências de proteína degradável no rúmen, proteína não degradável e proteína metabolizável.

Na pecuária leiteira, indicadores como o nitrogênio ureico no leite (MUN) auxiliam no monitoramento da eficiência de utilização do nitrogênio, permitindo ajustes finos nas dietas. Essa abordagem reduz desperdícios, melhora o desempenho animal e aumenta a eficiência econômica do sistema.

A evolução das diferentes tecnologias de ureia

Compreender que diferentes sistemas de produção apresentam necessidades distintas levou ao desenvolvimento de novas formas de utilização da ureia, cada uma com características próprias.

Ureia convencional: eficiência e excelente relação custo-benefício

A ureia convencional permanece como a fonte de NNP mais utilizada na bovinocultura. Sua rápida solubilização permite disponibilizar nitrogênio quase imediatamente após o consumo, favorecendo o crescimento da microbiota ruminal quando existe oferta adequada de energia fermentável.

Seu principal benefício continua sendo o excelente retorno econômico, especialmente em sistemas de pastejo durante a seca ou em dietas de confinamento que buscam substituir parcialmente fontes proteicas mais caras, como farelo de soja.

Entretanto, essa rápida degradação também representa sua maior limitação. Sem adaptação adequada dos animais, mistura homogênea, oferta de carboidratos fermentáveis e correto balanceamento da dieta, ocorre acúmulo de amônia no rúmen, reduzindo a eficiência de utilização do nitrogênio e aumentando o risco de intoxicação.

Na prática, a ureia convencional continua sendo extremamente eficiente, desde que utilizada dentro de um programa nutricional bem estruturado.

Ureia com enxofre: equilíbrio para a microbiota ruminal

Uma evolução importante foi a associação da ureia convencional com fontes sulfuradas, geralmente sulfato de amônio. 

O enxofre é indispensável para a síntese dos aminoácidos sulfurados metionina e cisteína pelas bactérias ruminais. Quando esse mineral está deficiente, parte do nitrogênio disponibilizado pela ureia deixa de ser aproveitado com máxima eficiência.

Assim, a ureia com enxofre busca melhorar o ambiente ruminal, favorecendo a atividade microbiana e aumentando a eficiência da síntese de proteína microbiana, principalmente em dietas baseadas em volumosos de baixa qualidade.

Por outro lado, seu uso exige atenção ao teor total de enxofre da dieta. Excesso de enxofre pode reduzir o consumo de matéria seca, comprometer a absorção de minerais como cobre e selênio e aumentar o risco de polioencefalomalácia, especialmente quando há contribuição significativa da água de bebida.

Ureia protegida: maior segurança e melhor sincronismo

Entre os avanços mais relevantes está a ureia protegida. Nessa tecnologia, os grânulos de ureia recebem revestimentos de lipídios, polímeros ou outras matrizes capazes de retardar sua dissolução no rúmen.

O objetivo não é impedir sua degradação, mas controlar a velocidade de liberação da amônia, aproximando-a da taxa de fermentação dos carboidratos. Esse maior sincronismo favorece a síntese de proteína microbiana, reduz picos de amônia ruminal e diminui os riscos associados à intoxicação.

Pesquisas demonstram melhora na eficiência de utilização do nitrogênio em diversas situações, especialmente em dietas com maior inclusão de concentrados. Entretanto, os resultados em ganho de peso ou produção de leite variam conforme categoria animal, qualidade do volumoso, composição da dieta e nível de inclusão da ureia.

Outro aspecto importante é o custo. Embora apresente vantagens nutricionais, a ureia protegida possui maior investimento inicial. Por isso, muitos nutricionistas optam pela utilização de blends entre ureia convencional e protegida, buscando equilibrar eficiência técnica e viabilidade econômica.

Ureia encapsulada: a nova geração do nitrogênio não proteico

A ureia encapsulada representa uma evolução da tecnologia de proteção. Nesse sistema, partículas individuais de ureia recebem camadas protetoras uniformes, utilizando materiais lipídicos, poliméricos ou minerais capazes de controlar com maior precisão sua taxa de liberação.

Essa uniformidade permite disponibilizar nitrogênio de forma ainda mais sincronizada com a fermentação ruminal, aumentando o aproveitamento pela microbiota e reduzindo perdas metabólicas.

Outra vantagem potencial está na maior previsibilidade da resposta nutricional, característica especialmente importante em sistemas intensivos, confinamentos e rebanhos leiteiros de alta produção.

Apesar do potencial, trata-se de uma tecnologia de maior custo, cuja adoção deve ser baseada em análise econômica e retorno esperado sobre o desempenho animal.

Limitações que permanecem

Apesar dos avanços, nenhuma tecnologia elimina a necessidade de um bom manejo nutricional.

A ureia protegida ou encapsulada não substitui completamente fontes de proteína verdadeira em animais de elevada exigência nutricional. Além disso, adaptação gradual dos animais, correta homogeneização da mistura, oferta de energia fermentável e controle das inclusões continuam sendo fatores decisivos para o sucesso da suplementação.

Em outras palavras, tecnologia aumenta a eficiência, mas não corrige erros de formulação. Mas, qual o futuro da ureia?

O futuro 

As pesquisas mais recentes caminham para sistemas ainda mais inteligentes de fornecimento de nitrogênio. Novos materiais para microencapsulamento, revestimentos biodegradáveis, associação com aminoácidos protegidos e integração com aditivos moduladores da fermentação ruminal prometem aumentar ainda mais a eficiência de utilização do NNP.

Ao mesmo tempo, ferramentas de inteligência artificial, sensores e modelos preditivos devem permitir ajustes nutricionais cada vez mais precisos, aproximando a suplementação da real necessidade dos animais. O futuro da ureia está diretamente ligado à eficiência biológica e à sustentabilidade dos sistemas de produção.

Nenhuma tecnologia substitui uma dieta corretamente balanceada, adaptação dos animais e manejo nutricional adequado. O avanço das tecnologias de proteção e encapsulamento, aliado aos conceitos de nutrição de precisão, demonstra que o futuro da suplementação nitrogenada está em utilizar cada grama de nitrogênio de forma mais eficiente, segura e sustentável.

Principais insights

↑ A ureia convencional continua sendo uma das fontes de nitrogênio de maior retorno econômico na bovinocultura.

↑ O sucesso da suplementação depende do sincronismo entre nitrogênio, energia fermentável e disponibilidade de enxofre.

↑ A ureia com enxofre favorece a síntese microbiana quando esse mineral é limitante, mas seu uso exige controle rigoroso da concentração total de enxofre na dieta.

↑ A ureia protegida reduz a velocidade de liberação da amônia, aumentando a eficiência ruminal e a segurança de utilização.

↑ A ureia encapsulada representa uma nova geração de tecnologias, proporcionando maior controle da liberação de nitrogênio e maior previsibilidade da resposta nutricional.

↑ Nutrição de precisão, modelos nutricionais e monitoramento da eficiência do nitrogênio estão redefinindo a forma como utilizamos fontes de NNP.

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Marcos Vinícius Martins Morais é Gerente Comercial da Nobel e atua há mais de uma década no agronegócio, com sólida experiência em nutrição animal, desenvolvimento de negócios e relacionamento comercial. Técnico em Agropecuária, Zootecnista, Mestre em Zootecnia e Doutor em Ciência Animal, combina conhecimento científico e visão de mercado para conectar soluções, oportunidades e resultados ao setor.

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