O Brasil é o quarto maior consumidor de fertilizantes do mundo e o maior importador. Essa combinação é resultado de uma estrutura produtiva que transformou o país em potência agrícola global sem desenvolver, na mesma proporção, a capacidade de produzir os insumos que essa agricultura exige.

O número mais citado é 80%. Na prática, para o nitrogênio — o nutriente mais consumido e mais sensível a choques de oferta — a dependência é ainda maior. Aproximadamente 90% do nitrogênio aplicado nas lavouras brasileiras é importado. Para o potássio, o índice supera 95%.

De onde vem cada nutriente

A origem dos insumos varia conforme o nutriente, e cada rota carrega seus próprios riscos de disponibilidade, câmbio e logística.

Note que as principais origens do nitrogênio e do fósforo passam, direta ou indiretamente, pelo Oriente Médio — seja pela produção em si (Omã, Arábia Saudita, Qatar), pelo escoamento (Estreito de Ormuz) ou pelo enxofre necessário para fabricar fosfatos.

Por que o Brasil não produz mais

A resposta envolve fatores geológicos, históricos e econômicos. O Brasil não dispõe de reservas expressivas de potássio ou enxofre, e a produção doméstica de ureia foi cronicamente subinvestida. A Petrobras chegou a operar unidades de fertilizantes nitrogenados, mas interrompeu as atividades em 2014–2015. Em 2026, a estatal retomou duas plantas (FAFEN-BA e FAFEN-SE) e aprovou a construção da UFN-III em Mato Grosso do Sul — com previsão de operação comercial apenas em 2029.

Mesmo com esses projetos, a estimativa é que o Brasil cubra, no máximo, 35% da demanda doméstica de ureia até 2029. A dependência estrutural persiste.

O que acontece quando uma rota trava

O conflito no Oriente Médio iniciado em 28 de fevereiro de 2026 é o exemplo mais recente e o mais dramático. O Estreito de Ormuz, por onde passa parcela significativa da ureia e do enxofre que abastecem o mundo, está praticamente fechado. As consequências para o Brasil foram imediatas e progressivas:

  • Preço da ureia CFR Brasil:saiu de ~$450–500/t em fevereiro para $780–850/t em abril — alta de mais de 70% em menos de dois meses.

  • Enxofre CFR Brasil:atingiu ~$850/t, praticamente o mesmo patamar do MAP ($880–900/t CFR) — tornando a produção de fosfatos economicamente inviável em diversas situações.

  • Disponibilidade reduzida:com Índia, Austrália e EUA competindo pelo mesmo produto, os fornecedores globais simplesmente migraram para mercados de maior retorno.

  • Fretes em alta:a rota Vancouver–Brasil subiu 34% em cinco semanas; rotas alternativas via África encareceram pela maior demanda de tonelagem

O custo real da dependência

Calcular o custo da dependência vai além da variação de preço do fertilizante. Há pelo menos três dimensões que os grandes compradores precisam monitorar:

  • Custo financeiro direto:volatilidade de preço e câmbio impactam diretamente o custo de produção por hectare e a relação de troca com a commodity agrícola (barter ratio).

  • Custo de oportunidade:mercados que se antecipam conseguem preços menores e maior disponibilidade. Mercados que esperam — como o Brasil tem feito neste ciclo — encontram menos produto a preço mais alto.

  • Risco de desabastecimento:o cenário extremo, onde o produto simplesmente não chega a tempo para a janela de aplicação, com impacto direto na produtividade da safra.

A mitigação desses riscos passa por diversificação de origem, gestão ativa de estoque e inteligência de mercado para antecipar janelas de compra — antes que o mercado global force a decisão.

A Nobel Trading acompanha semanalmente os mercados globais de fertilizantes, fretes e insumos agrícolas. O Nobel Report Agro é publicado mensalmente com análises de preço, oferta, demanda e recomendações táticas para compradores brasileiros.

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