O mercado global de ureia atravessa um momento que exige mais leitura estrutural do que reação pontual a preços. Depois de um período prolongado de pressão baixista, marcado por excesso de oferta relativa e comportamento oportunista de compradores, observa-se agora uma inflexão relevante na forma como os produtores conduzem suas vendas.
O ponto central dessa mudança está no fato de que o produtor passou a priorizar a defesa de preço antes de liberar volume. Isso significa que a oferta não desapareceu, mas deixou de estar disponível de forma indiscriminada. E, ao invés de buscar giro acelerado, os principais fornecedores passaram a administrar o ritmo de vendas de acordo com níveis considerados aceitáveis para preservação de margem.
Esse comportamento é sustentado por um conjunto de fatores que atuam simultaneamente. A Rússia opera com maior seletividade nos embarques, limitando volumes no curto prazo; o Oriente Médio mantém disciplina comercial e evita concessões relevantes; o Irã apresenta restrições operacionais que reduzem a previsibilidade; a China segue fora do mercado exportador, o que retira uma fonte histórica de pressão competitiva; e a Europa permanece travada por questões regulatórias e energéticas que reduzem liquidez. Quando essas peças são analisadas em conjunto, o resultado é um mercado com menos elasticidade para quedas adicionais.
Nesse contexto, o preço deixa de ser o mecanismo principal de ajuste entre oferta e demanda e o ajuste passa a ocorrer pelo volume disponível e pelo timing das vendas. Esse movimento altera profundamente a dinâmica para o comprador, especialmente em mercados importadores como o Brasil. A expectativa de que o preço cairá apenas porque a demanda não está agressiva perde força quando o produtor demonstra disposição para esperar.
O efeito prático é um mercado que não apresenta impulso altista claro, mas também não oferece conforto para quem decide postergar compras indefinidamente. O risco deixa de estar concentrado em comprar cedo demais e passa a residir na possibilidade de pagar mais à frente em um ambiente de oferta controlada.
A lição que cada vez mais fica, principalmente olhando para o futuro do mercado, é que o novo equilíbrio do mercado global de ureia não será definido por euforia, mas por disciplina. Trata-se de um cenário em que a queda se torna mais difícil do que a alta, e em que a gestão de risco e o planejamento de compras ganham peso maior do que a tentativa de capturar preços mínimos que já não se materializam com clareza.

