Historicamente, o comprador brasileiro tende a postergar decisões enquanto o mercado parece oferecer espaço para recuo. O problema é que esse comportamento, quando replicado em larga escala, transforma expectativa em pressão. Em um ambiente de oferta mais disciplinada, a concentração de demanda deixa de gerar desconto e passa a gerar custo.
O tender recente da Índia cumpriu exatamente esse papel de mudança de regime. Ele não provocou uma disparada especulativa, mas removeu o “colchão” de preço que existia no mercado internacional. A partir desse novo piso, o vendedor ganhou conforto e o comprador perdeu tempo como aliado.
Quando se adiciona a isso a logística, o risco se amplia. Portos pressionados, filas crescentes e janelas de descarga mais disputadas fazem com que o custo final deixe de ser apenas preço CFR. Quem compra tarde, compra em um mercado mais cheio — de navios, de filas e de incerteza operacional.
A safrinha funciona como amplificador desse movimento. A demanda não surge de forma gradual; ela se concentra. Se muitos compradores decidirem entrar ao mesmo tempo, o mercado responde com ajuste. Não apenas de preço, mas de prazo, disponibilidade de origem e seletividade comercial.
Por isso, o risco de 2026 não está em uma alta abrupta, mas em um encarecimento silencioso. Um mercado que sobe alguns dólares por tonelada, enquanto adiciona dias de fila, custo financeiro e menor poder de negociação. No agregado, isso corrói margem de forma significativa.
A estratégia defensiva deixa de ser “acertar o fundo” e passa a ser “reduzir exposição”. Antecipar parte das necessidades, diversificar janelas e diluir compras no tempo não é uma aposta direcional. É gestão de risco em um mercado que já não oferece prêmio para quem espera demais.
A safrinha não começa no campo. Ela começa na decisão de compra. E, em 2026, essa decisão tende a penalizar quem chega junto demais.


